sábado, 3 de maio de 2014

Taxi Driver

Um dos grandes clássicos estadunidenses da década de 1970, no manuseio de um grande diretor: Martin Scorsese.  Um homem de muitos filmes bons ou, que no mínimo, me atraem bastante. Antes de Taxi Driver, ele dirigiu outros 10 filmes, somando aqui também documentários e filmes de curta-metragem, não os assisti ainda, mas tenho muita vontade de vê-los e refinar um pouco mais minha opinião sobre Scorsese. Ainda assim, penso que foi Taxi Driver o primeiro filme que o evidenciou mais, talvez pelo grande impacto que essa obra teve na história cinematográfica. Realmente, é um filme em que se você assiste agora, 38 anos depois, ainda possui o grande potencial de marcar as pessoas intensamente. Esse poder de uma obra, que vai além do tempo, pode ser um bom elemento para nomear algo como “clássico”.
A história se desenvolve orbitando Travis Bickle (Robert De Niro). Descobrimos, logo de início, que ele lutou na Guerra do Vietnã, deve-se ficar atento ao filme (de preferência a qualquer filme, é que alguns não exigem muito do espectador e dão margem para uma desatenção instintiva), pois algumas informações não serão mais repetidas ou retrabalhadas, que é o caso da informação de que o protagonista é um veterano bélico, é diretamente dito isso apenas quando ele está numa espécie de entrevista de emprego para trabalhar como taxista. Claro, se isso não fosse afetar o desenvolvimento do filme e fosse apenas uma ilustração para o personagem, tudo bem, mas toda a trajetória que ele seguirá durante o filme e seu destino estão muito ligados a ele ter lutado na guerra. Nós vamos percebendo uma anomalia mental ou psicológica de Travis, que só se intensifica. Com toda certeza é um filme para rever, você capta esses vestígios de instabilidades mentais no personagem numa segunda ou terceira vez que assiste à fita, porque você consegue ter um olhar mais estrutural para Taxi Driver e os rumos do protagonista. Eu, na primeira vez que vi, surpreendi-me bastante, pois é bem sutil a apresentação dos problemas dele. As situações começam a ficar com maior expressão quando Travis muda seu visual, foto do topo, é aí que você pode perceber que não está lidando com um herói à moda clássica.
Em relação a isso, a ideia de herói nesse filme é fundamental. Taxi Driver é uma clássica sequência de um anti-herói. Problematizando tudo aquilo que estamos acostumados a ver em histórias heroicas, não que elas estejam erradas. No cinema ocorre muito da “sugestão”: ele apresenta uma realidade que tenha alguma verossimilhança (ou pelo menos tenta), e o espectador é o meio sensível que capta pontos interessantes, criando, às vezes, coisas pra si próprio, identificando-se. Não a nada que diga, em Taxi Driver, que os heróis não existem, ele apenas sugere um olhar.
Uma das características que admiro no diretor Scorsese é o trabalho que ele faz com as câmeras: a câmera que substitui o olhar como na cena em que Betsy (Cybill Shepherd) vê pela primeira vez Travis em seu táxi ou quando ele está junto com um passageiro no táxi (interpretação curta, mas muito boa de Martin Scorsese) e olha as janelas de um prédio à procura de alguém. Outra qualidade é realidade das cenas de ação com sangue, um efeito primoroso que será encontrado em muitas outras sequências futuras do diretor como Os Bons Companheiros (Goodfellas) e Os Infiltrados (The Departed).
Mas Scorsese não trabalha sozinho, tudo é um ótimo trabalho em conjunto. O roteiro de Paul Schrader com uma narrativa visceral, atuações coadjuvantes marcantes: Harvey Keitel como Sport e Jodie Foster (beem nova!) como Iris. E uma das melhores atuações de protagonista que já vi no cinema: Robert De Niro leva o filme com seu complexo Travis Bickle, a câmera praticamente pouco se desfoca e ele dá bons motivos para ela não desgrudar mesmo dele. Um anti-herói clássico, que tanto nos faz refletir.  

sexta-feira, 7 de março de 2014

Pequena Miss Sunshine

Em um espaço cada vez mais permeado por filmes baseados e inspirados em histórias de outros meios de comunicação, é muito gratificante descobrir obras de grande qualidade que não se matizaram diretamente por uma história já existente em outra mídia, que é algo ficando cada vez mais comum no cinema, sobretudo no estadunidense. Não que o fenômeno seja algo negativo, acho até bem previsível essa situação, pois se for pensar em tudo o que já foi contado, escrito, desenhado... Veremos que arte tem muito a oferecer como reais bases na filmagem de um novo longa, trazendo elementos muito positivos, como a ideia de ressignificação. A criação de algo bem autoral hoje em dia, portanto, se torna desafiadora a quem trabalhará com isso: um grande filme feito nessas condições se torna um filme ainda maior. Esse é o lado bacana.
Em 2006, fomos apresentados a um com essas características e que ficou muito célebre, com todo o direito. Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine) é a obra da vez. Dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris a partir do roteiro original de Michael Arndt, no caso, levou o Oscar de Melhor Roteiro Original em 2007. P.M.S. ganhou outro Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (Alan Arkin).
A história gira em torno da pequena Olive, interpretada por Abigail Breslin, que tem a oportunidade de disputar o torneio Little Miss Sunshine. O primeiro problema aparece devido a grande distância de onde ocorrerá a disputa, de Los Angeles com destino à Califórnia. Toda sua nada convencional família se envolverá para que Olive participe da competição, mas não de maneira agradável, o envolvimento será a partir de "trancos e barrancos".
Entramos aí em uma das mais belas qualidades do longa: o jeito como é mostrado o ato de lidar com os problemas em família. Ela consegue partir para a viagem, mas é numa perua Kombi que dará uma série de problemas; todos vão: Richard (Greg Kinnear), o pai - Sheryl (Toni Collette), a mãe - Dwayne (Paul Dano), o irmão - Edwin (Alan Arkin), o vô e Frank (Steve Carell), o tio, contudo com muito esforço; eles prevalecem na viagem, e por incrível que pareça, mesmo com o falecimento de um dos personagens. Gosto bastante de filmes que conseguem simbolizar uma ideia pela fotografia, pelas cenas ou pelo conjunto de cenas sem precisar ser algo explícito, podendo até mesmo proporcionar, e assim é ainda melhor, interpretações ambíguas. Todos esses problemas e obstáculos que eles superam servem de metáfora para as dificuldades, tidas por todas famílias, e para a perseverança e a coragem, que todas as famílias devem ter. Só na capa do DVD de P.M.S., a imagem já parece mostrar tudo isso (colocarei-a no topo da postagem). Todos correndo ou colaborando com esforço para que a perua continue no seu rumo: a perua nada mais é do que a própria família: calejada, mas ainda com potência.
P.M.S tem o estilo de um road movie, algo como um "filme de estrada". Nos Estados Unidos, o estilo road também aparece muito na literatura, ou melhor, o formato começou na literatura para depois passar pro cinema, como muitos outros formatos. A título de exemplo: o livro On the Road, de Jack Kerouac; que carrega muita dessa atmosfera das estradas. No entanto, diferente de On the Road, P.M.S. coloca uma realidade pouco tradicional nos caminhos da estrada: uma família inteira rumo a um objetivo. Particularmente nunca vi um assunto assim nem em cinema nem na literatura, ainda que deva existir, sobretudo nos livros - esses escondem maravilhas.
O legal desse estilo é ter a estrada como metáfora da redescoberta e autoconhecimento (acho meio estranho usar esses termos, parece auto-ajuda, mas enfim). Até mesmo superação, a qualidade mais evidente no caso do filme. 
As atuações estão também excelentes. O roteiro foi muito "feliz" na criação de cada um dos personagens e os atores se encaixaram de forma muito boa. Eles confirmam uma frase que ouvi há um tempo: "Não existem pequenos papéis, o que existem são pequenos atores." E no caso, os grandes papéis só encontraram grandes atores. Em especial, Alan Arkin como o avô subversivo de lares e Steve Carell como o tio suicida. Umas das cenas iniciais, na mesa de jantar, apresenta a qualidade das atuações: um diálogo caótico entre a família, cada um dos personagens problematizados da melhor forma pelos atores. Realmente, essa foi uma qualidade que muito me atraiu pro filme. 

Leituras recomendadas

° Crítica de Pequena Miss Sunshine no The Wall Street Journal no link:
http://online.wsj.com/news/articles/SB115387154824217191?mg=reno64-wsj&url=http%3A%2F%2Fonline.wsj.com%2Farticle%2FSB115387154824217191.html

° Livro On the Road, de Jack Kerouac: de preferência a introdução e o posfácio de Eduardo Bueno. Se tiver fôlego, delicie-se com o livro na íntegra.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Breve retrato

Atualmente, penso que um dos assuntos que mais tenho facilidade em abordar é referente ao cinema, mas nem sempre foi assim. Iniciei a aventurar-me explicitamente nesse campo da arte mais ou menos em 2010 e 2009, é sempre meio complicado encontrar a origem das coisas. Por um somatório de situações posso concluir o início desse meu aprofundamento cinematográfico, sendo que ainda nem sai da ponta desse grande iceberg. Tentarei passar uma espécie de retrato histórico pessoal até o momento de hoje, tentando ambientar minha realidade relacional com o cinema.
Claramente eu já tinha uma boa experiência fílmica antes de 2010, como a maioria que nasceu na década de 1990, e os primeiros passos acontecem sempre com obras infantis e adolescentes, não posso negar que apenas nessa bagagem já tem muito assunto para escrever por aqui. Mas um exemplo já basta: a empresa Pixar e as suas animações que me marcaram demais. Sempre considerei o estilo das animações da Pixar fantástico, era algo que de fato me fazia viajar, saia das salas de cinema olhando de modo diferenciado para o "mundo real", penso que a minha imaginação era potencializada. As produções da Pixar são sempre bem verossímeis, eu como criança sabia que aquilo não existia, no entanto, certos elementos só de começarem a existir em nossas mentes já fazem uma grande diferença.
Ainda assim, nunca tive a pretensão de ir atrás de novas obras cinematográficas e compreender a técnica, a filosofia, a arte etc por trás. Até 2010. 
No meu Ensino Médio, tive a oportunidade de assistir muitos filmes bons, a professora, e também diretora da escola - minha querida Tia Ieda - dedicava muitas das aulas para passar diferentes obras, sobretudo no último ano, o de 2010. Desconfio que os dois anos anteriores serviram de combustível para que nesse último eu então me apaixonasse pelo cinema. Assisti vários que me marcaram e marcam até hoje (pois quando é bom, sempre busco rever): Na natureza selvagem (Into the wild), Pequena miss Sunshine (Little miss Sunshine), A onda (Die welle), Batman: O cavaleiro das trevas (Batman: The dark knight). Esses são apenas alguns fortes exemplos dos muitos outros que vi, outros eu nem lembro por falta de atenção minha na época ou por alguma situação que me fez deixar de assistir de fato um filme, aquele modo de assistir sempre com a "antena ligada". 
A partir de então, comecei a ir pegando diferentes filmes de fora - no sentido de ir além do que via na televisão e na escola - e de lá pra cá não parei mais com essa atitude. Descobri muitas outras obras-primas, e nesse blog tentarei analisar o máximo que puder delas. 
Criei um hábito de ver filmes e dar uma singela organização a eles. Sempre ao terminar de vê-los, tentava anotar seu nome, ano e diretor. Posso dizer que preenchi cerca de umas 7 folhas só com essas informações mais ou menos, mas a quantidade não me importa. O essencial pra mim é conhecer variados filmes, de variados diretores e de variados anos. Encontrando os belos traços na quantidade, indo além de apenas alguns segmentos de filmes. Penso que assim que alguém realmente entra no universo do cinema.  
Hoje em dia, costumo assistir muitos através da Internet - ainda que a faculdade absorva boa parte do meu tempo e assim assista menos do que antigamente (minha média devia ser três ou quatro por semana, nunca foi muito) - mesmo assim não deixo de comprar os DVDs, algo meio incomum hoje em dia com muitos indivíduos, no entanto nunca perderei essa vontade de ter os DVDs, ainda que eu só compre aqueles que sei que são ''bons", ou seja, sempre vejo antes por alguma outra mídia. Ir numa sala de cinema e ver na telona, ultimamente não estou indo muito, mas é uma experiência insubstituível, acredito que é a melhor forma de ver qualquer longa.    
Ainda tenho muito caminho pela frente, mas fico feliz, pois sei que enquanto houver esse caminho pela frente, minhas alegrias e momentos felizes estarão garantidos.