Em um espaço cada vez mais permeado por filmes baseados e inspirados em histórias de outros meios de comunicação, é muito gratificante descobrir obras de grande qualidade que não se matizaram diretamente por uma história já existente em outra mídia, que é algo ficando cada vez mais comum no cinema, sobretudo no estadunidense. Não que o fenômeno seja algo negativo, acho até bem previsível essa situação, pois se for pensar em tudo o que já foi contado, escrito, desenhado... Veremos que arte tem muito a oferecer como reais bases na filmagem de um novo longa, trazendo elementos muito positivos, como a ideia de ressignificação. A criação de algo bem autoral hoje em dia, portanto, se torna desafiadora a quem trabalhará com isso: um grande filme feito nessas condições se torna um filme ainda maior. Esse é o lado bacana.
Em 2006, fomos apresentados a um com essas características e que ficou muito célebre, com todo o direito. Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine) é a obra da vez. Dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris a partir do roteiro original de Michael Arndt, no caso, levou o Oscar de Melhor Roteiro Original em 2007. P.M.S. ganhou outro Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (Alan Arkin).
A história gira em torno da pequena Olive, interpretada por Abigail Breslin, que tem a oportunidade de disputar o torneio Little Miss Sunshine. O primeiro problema aparece devido a grande distância de onde ocorrerá a disputa, de Los Angeles com destino à Califórnia. Toda sua nada convencional família se envolverá para que Olive participe da competição, mas não de maneira agradável, o envolvimento será a partir de "trancos e barrancos".
Entramos aí em uma das mais belas qualidades do longa: o jeito como é mostrado o ato de lidar com os problemas em família. Ela consegue partir para a viagem, mas é numa perua Kombi que dará uma série de problemas; todos vão: Richard (Greg Kinnear), o pai - Sheryl (Toni Collette), a mãe - Dwayne (Paul Dano), o irmão - Edwin (Alan Arkin), o vô e Frank (Steve Carell), o tio, contudo com muito esforço; eles prevalecem na viagem, e por incrível que pareça, mesmo com o falecimento de um dos personagens. Gosto bastante de filmes que conseguem simbolizar uma ideia pela fotografia, pelas cenas ou pelo conjunto de cenas sem precisar ser algo explícito, podendo até mesmo proporcionar, e assim é ainda melhor, interpretações ambíguas. Todos esses problemas e obstáculos que eles superam servem de metáfora para as dificuldades, tidas por todas famílias, e para a perseverança e a coragem, que todas as famílias devem ter. Só na capa do DVD de P.M.S., a imagem já parece mostrar tudo isso (colocarei-a no topo da postagem). Todos correndo ou colaborando com esforço para que a perua continue no seu rumo: a perua nada mais é do que a própria família: calejada, mas ainda com potência.
P.M.S tem o estilo de um road movie, algo como um "filme de estrada". Nos Estados Unidos, o estilo road também aparece muito na literatura, ou melhor, o formato começou na literatura para depois passar pro cinema, como muitos outros formatos. A título de exemplo: o livro On the Road, de Jack Kerouac; que carrega muita dessa atmosfera das estradas. No entanto, diferente de On the Road, P.M.S. coloca uma realidade pouco tradicional nos caminhos da estrada: uma família inteira rumo a um objetivo. Particularmente nunca vi um assunto assim nem em cinema nem na literatura, ainda que deva existir, sobretudo nos livros - esses escondem maravilhas.
O legal desse estilo é ter a estrada como metáfora da redescoberta e autoconhecimento (acho meio estranho usar esses termos, parece auto-ajuda, mas enfim). Até mesmo superação, a qualidade mais evidente no caso do filme.
As atuações estão também excelentes. O roteiro foi muito "feliz" na criação de cada um dos personagens e os atores se encaixaram de forma muito boa. Eles confirmam uma frase que ouvi há um tempo: "Não existem pequenos papéis, o que existem são pequenos atores." E no caso, os grandes papéis só encontraram grandes atores. Em especial, Alan Arkin como o avô subversivo de lares e Steve Carell como o tio suicida. Umas das cenas iniciais, na mesa de jantar, apresenta a qualidade das atuações: um diálogo caótico entre a família, cada um dos personagens problematizados da melhor forma pelos atores. Realmente, essa foi uma qualidade que muito me atraiu pro filme.
Leituras recomendadas
° Crítica de Pequena Miss Sunshine no The Wall Street Journal no link:
http://online.wsj.com/news/articles/SB115387154824217191?mg=reno64-wsj&url=http%3A%2F%2Fonline.wsj.com%2Farticle%2FSB115387154824217191.html
° Livro On the Road, de Jack Kerouac: de preferência a introdução e o posfácio de Eduardo Bueno. Se tiver fôlego, delicie-se com o livro na íntegra.
Em 2006, fomos apresentados a um com essas características e que ficou muito célebre, com todo o direito. Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine) é a obra da vez. Dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris a partir do roteiro original de Michael Arndt, no caso, levou o Oscar de Melhor Roteiro Original em 2007. P.M.S. ganhou outro Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (Alan Arkin).
A história gira em torno da pequena Olive, interpretada por Abigail Breslin, que tem a oportunidade de disputar o torneio Little Miss Sunshine. O primeiro problema aparece devido a grande distância de onde ocorrerá a disputa, de Los Angeles com destino à Califórnia. Toda sua nada convencional família se envolverá para que Olive participe da competição, mas não de maneira agradável, o envolvimento será a partir de "trancos e barrancos".
Entramos aí em uma das mais belas qualidades do longa: o jeito como é mostrado o ato de lidar com os problemas em família. Ela consegue partir para a viagem, mas é numa perua Kombi que dará uma série de problemas; todos vão: Richard (Greg Kinnear), o pai - Sheryl (Toni Collette), a mãe - Dwayne (Paul Dano), o irmão - Edwin (Alan Arkin), o vô e Frank (Steve Carell), o tio, contudo com muito esforço; eles prevalecem na viagem, e por incrível que pareça, mesmo com o falecimento de um dos personagens. Gosto bastante de filmes que conseguem simbolizar uma ideia pela fotografia, pelas cenas ou pelo conjunto de cenas sem precisar ser algo explícito, podendo até mesmo proporcionar, e assim é ainda melhor, interpretações ambíguas. Todos esses problemas e obstáculos que eles superam servem de metáfora para as dificuldades, tidas por todas famílias, e para a perseverança e a coragem, que todas as famílias devem ter. Só na capa do DVD de P.M.S., a imagem já parece mostrar tudo isso (colocarei-a no topo da postagem). Todos correndo ou colaborando com esforço para que a perua continue no seu rumo: a perua nada mais é do que a própria família: calejada, mas ainda com potência.
P.M.S tem o estilo de um road movie, algo como um "filme de estrada". Nos Estados Unidos, o estilo road também aparece muito na literatura, ou melhor, o formato começou na literatura para depois passar pro cinema, como muitos outros formatos. A título de exemplo: o livro On the Road, de Jack Kerouac; que carrega muita dessa atmosfera das estradas. No entanto, diferente de On the Road, P.M.S. coloca uma realidade pouco tradicional nos caminhos da estrada: uma família inteira rumo a um objetivo. Particularmente nunca vi um assunto assim nem em cinema nem na literatura, ainda que deva existir, sobretudo nos livros - esses escondem maravilhas.
O legal desse estilo é ter a estrada como metáfora da redescoberta e autoconhecimento (acho meio estranho usar esses termos, parece auto-ajuda, mas enfim). Até mesmo superação, a qualidade mais evidente no caso do filme.
As atuações estão também excelentes. O roteiro foi muito "feliz" na criação de cada um dos personagens e os atores se encaixaram de forma muito boa. Eles confirmam uma frase que ouvi há um tempo: "Não existem pequenos papéis, o que existem são pequenos atores." E no caso, os grandes papéis só encontraram grandes atores. Em especial, Alan Arkin como o avô subversivo de lares e Steve Carell como o tio suicida. Umas das cenas iniciais, na mesa de jantar, apresenta a qualidade das atuações: um diálogo caótico entre a família, cada um dos personagens problematizados da melhor forma pelos atores. Realmente, essa foi uma qualidade que muito me atraiu pro filme.
Leituras recomendadas
° Crítica de Pequena Miss Sunshine no The Wall Street Journal no link:
http://online.wsj.com/news/articles/SB115387154824217191?mg=reno64-wsj&url=http%3A%2F%2Fonline.wsj.com%2Farticle%2FSB115387154824217191.html
° Livro On the Road, de Jack Kerouac: de preferência a introdução e o posfácio de Eduardo Bueno. Se tiver fôlego, delicie-se com o livro na íntegra.

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